Quinta, 18 de Março de 2010
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Comentário do Dia » 17.03.10

Um olho no padre e outro na missa

___ José L. Carvalho*

Desde o início do corrente mês os analistas econômicos vêm enfatizando a necessidade de o Banco Central aumentar a taxa básica de juros para conter a pressão inflacionária. Inflação, percebida pela elevação nos índices de preço, é, na realidade, um excesso de oferta de dinheiro que provoca um correspondente excesso de demanda por bens e serviços. A percepção do fenômeno pelo aumento de preços tem induzido alguns analistas a identificarem os produtos responsáveis pelo aumento dos índices de preços. Já passamos por isso e essa é uma prática perigosa, pois responsabiliza alguns bens e, conseqüentemente, seus produtores, pela inflação do mês.

 

Um índice de preços é uma média ponderada de um conjunto seleto de preços. Assim, por definição, a variação registrada para a média resultará da média das variações registradas para cada preço que compõe o índice. Portanto, haverá sempre bens cujos preços apresentarão uma variação acima da média, enquanto que para outros essa variação será abaixo da média. Essa propriedade singela das médias perde sentido quando se atribui a alguns poucos produtos a responsabilidade pelo aumento do índice de preços. Identificados os vilões, algo terá que ser feito para conter o ímpeto inflacionário dos produtores ou dos comerciantes desses produtos. Aqueles que vivenciaram a miríade de planos inaugurada pelo Plano Cruzado e os fiscais do Sarney por certo se lembrarão da inflação do chuchu, das mensalidades escolares, dos planos de saúde e de outras tantas, assim como as arbitrariedades cometidas para combater a inflação pelas suas conseqüências e não por suas causas.

 

A autoridade monetária procura controlar a liquidez da economia por meio da taxa de juros. Essa estratégia vem sendo adotada na maioria dos países e resulta das dificuldades que as inovações financeiras têm gerado para a caracterização do relevante conceito agregado de meios de pagamentos. Assim, todos especulam sobre a taxa básica de juros a ser fixada pela autoridade monetária. Por isso, muitos acreditam que altas taxas de juros implicarão em baixa inflação. Entretanto, nem sempre isso é verificado, uma vez que aumento nas expectativas de inflação eleva as taxas de juros. É preciso ter um olho no padre e outro na missa, isto é, acompanhar a taxa básica de juros e a evolução dos agregados monetários. No Brasil, ao longo do ano de 2009, os meios de pagamentos em sua conceituação mais simples (M1), apresentaram uma taxa de variação nos últimos 12 meses que cresceu consistentemente de 3,1% em janeiro até 11% em dezembro. Mantida essa tendência, ainda que o Banco Central eleve a taxa básica de juros, a pressão inflacionária ultrapassará a meta, mesmo que a economia venha a crescer 5% neste ano.

 

Fonte da imagem: Wikipedia

* Vice-Presidente do Instituto Liberal

17.03.2010


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