Comentário do Dia » 26.07.10
O Ministro e o que não se vê
___ José L. Carvalho*
Em uma longa entrevista publicada em O Globo (22-07-2010, p.23) o Ministro da Fazenda afirma que não fora a ação de política econômica do governo, o PIB brasileiro em 2009 teria encolhido em 3%:
Se nós saímos logo da crise, foi porque usamos instrumentos fiscais e de crédito. O BNDES recebeu R$ 200 bilhões para emprestar. Foi ousado, mas graças a isso conseguimos recuperar rapidamente o nível de investimento. ... Calculamos que, se não tivéssemos tomado as medidas, o PIB brasileiro em 2009 teria sido negativo em 3%, em vez de ter empatado como empatamos.
O auto-elogio assim como a importância quantitativa da política do governo e seu impacto sobre os investimentos não estão de acordo com as estatísticas oficiais.
Desde 2007 e até a eclosão da crise das subprimes, o crescimento do PIB a cada trimestre, acumulado em quatro trimestres (ano findo no trimestre referência), superava a marca de 6%. Com a eclosão da crise que se arrastava nos EUA desde 2007 em setembro de 2008, a economia brasileira foi inicialmente atingida nas suas relações comercial e financeira com o resto do mundo. No terceiro trimestre de 2008, o PIB acumulado nos últimos quatro trimestres crescia 6,65% e, até o segundo trimestre de 2009 essa taxa caiu consistentemente atingindo neste último trimestre 1,0%. Entretanto, a marolinha ainda não havia passado de modo que nos dois últimos trimestres de 2009 essas taxas de variação do PIB foram negativas e o PIB de 2009 apresentou uma queda de 0,2%.
Conforme o Sr. Ministro, o PIB no ano passado deveria ter apresentado uma redução em relação a 2008 de 3%, não tivesse o governo favorecido com crédito e isenção de impostos uma pequena parcela de brasileiros. Entretanto, a recuperação dos saldos comerciais a partir do segundo trimestre de 2009 pode ser apontada como a principal fonte de estímulo à demanda agregada e não resultou de qualquer política governamental, mas sim da recuperação dos preços de nossos principais produtos primários, os quais responderam, na margem, por quase 80% da expansão de nossas exportações no período.
Quanto aos investimentos os fatos também não colaboram com o Sr. Ministro. Ao longo de 2007, a taxa de investimento em relação ao PIB era cerca de 17%. Até o terceiro trimestre de 2008 essa taxa havia aumentado para cerca de 20%, caindo para 16% no quarto trimestre do mesmo ano e mantendo-se neste nível ao longo de 2009.
Creio ser essa a primeira vez que o Sr. Ministro concorda com Bastiat que destacava a importância do que não se vê. É uma pena que o Sr. Ministro não justifique os 3% nem tenha considerado todos os aspectos, normalmente não vistos, associados à sua política econômica. Subsídios e isenções de impostos têm efeitos alocativos e redistributivos, além do impacto sobre as contas públicas, impacto este agravado pelo aumento do funcionalismo público e pela aceleração dos gastos do PAC. Além disso, mais dívida pública hoje significa mais impostos no futuro.
* Vice-Presidente do Instituto Liberal
26.07.2010
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