Quinta, 09 de Setembro de 2010
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Livro em Resenha » 22.05.06

Matarazzo, um gigante empresarial

___ Cândido Prunes*

Poucos são os brasileiros biografados com cuidado. Trata-se de um gênero pouco explorado por escritores nacionais. Mais rara ainda são aquelas biografias dedicadas a empresários. Somente por isso a obra Matarazzo (A Travessia – 1o volume; e Colosso Brasileiro – 2o volume), de Ronaldo Costa Couto, publicada em 2004, já merece uma leitura atenta.

Francesco Matarazzo imigrou da Itália para o Brasil em 1881. Tinha então 27 anos e veio acompanhado da esposa e dois filhos. Ao contrário da maioria dos imigrantes, dispunha de pequeno capital para investir no setor de alimentos. Começou no interior de São Paulo produzindo banha de porco com a ajuda da mulher. Numa época em que a banha era transportada em tonéis e depois vendida em pedaços aos consumidores, Matarazzo passou a comercializá-la em pequenas latas. Facilitava o transporte, aumentava a durabilidade do produto e era muito mais higiênico. Graças a seu gênio empresarial, o negócio foi se expandindo e se verticalizando. Numa saga que duraria mais de cinco décadas, Matarazzo ergueria o maior império industrial que até então o Brasil conhecera: suas indústrias incluíam de fábricas de licores até frigoríficos; de tecelagem a moagem de sal; de refino de açúcar a adubos e inseticidas. As filiais de suas indústrias e estabelecimentos comerciais estavam virtualmente presentes em todos os estados brasileiros. Seus negócios estendiam-se ao Prata, à Itália e Estados Unidos. Quando morreu, na década de 30, já octogenário, sua fortuna foi estimada em, no mínimo, dez bilhões de dólares.

 

A biografia de Ronaldo Costa Couto exalta, com justa razão, a figura empresarial de Matarazzo, cujo título nobiliárquico de "Conde" fora-lhe concedido pelo Rei da Itália. Mesmo depois de haver imigrado para o Brasil, ele manteve fortes vínculos com sua terra natal. Durante a Grande Guerra, já milionário, esforçou-se o quanto foi possível para ajudar seu país de origem. Não há dúvidas, como o autor ressalta em inúmeras passagens, de que Matarazzo foi um gênio dos negócios. Enxergou muito à frente de seu tempo. Trouxe importantes inovações tecnológicas. Soube explorar todas as oportunidades de negócios, até mesmo na adversidade, como no período que se seguiu ao colapso da Bolsa de Nova Iorque, em 1929. Seu descortino empresarial levava-o a oferecer aos consumidores produtos de melhor qualidade e menor preço. Optou pela verticalização dos negócios, uma das razões apontadas para o posterior colapso. Se o modelo empresarial altamente diversificado funcionou ao longo dos primeiros 50 anos, a falta de foco cobrou um elevado preço nos anos subseqüentes, levando ao desaparecimento do grupo nas mãos da terceira geração.

 

Evidentemente, nem tudo na vida do velho Conde Matarazzo eram luzes. Ele flertou, por exemplo, com os ditadores de ambos os lados do Atlântico, Mussolini e Vargas, ciente de que seus negócios não prosperariam se tivesse o poder público contra si. Talvez esse tenha sido o aspecto mais questionável do biografado que Ronaldo Costa Couto aventurou-se a explorar (embora possa ser compreendido como uma estratégia de sobrevivência). Até porque há muitos indícios de que essa biografia – apesar de seus indiscutíveis méritos – ficou comprometida devido aos vínculos do autor com os descendentes do Conde.

 

Talvez o fato de o autor enxergar limites ao que poderia contar ou deixar de contar, ele tenha se dedicado tantas vezes a atacar ou desdenhar do capitalismo. Se o seu biografado era um herói empresarial, contraditoriamente o autor da biografia considera o capitalismo um mal terrível. Seria, na visão do autor, o responsável pela pobreza e as desigualdades sociais. Tanto é verdade que na página 78 do primeiro volume, por exemplo, o autor menciona as condições adversas na Itália que levaram à imigração em massa: "Lá, como se viu, muitas mudanças, disparada do capitalismo, pobreza, crise, instabilidade econômica...". Ou seja, a primeira das razões para o Conde Matarazzo mudar-se para o Brasil era a "disparada do capitalismo na Itália". Mas logo a seguir, na página 97, contradizendo-se, o autor revela as verdadeiras razões para a "pobreza, crise, instabilidade econômica" daqueles tempos: a opressão fiscal do Estado italiano, "cada vez mais voraz de recursos. Impostos elevadíssimos, absurdos. Resultado: quebradeira, pauperização, sofrimento, fuga". No Brasil, o gênio empreendedor iria encontrar um ambiente completamente oposto: baixa carga tributária e pouca (ou nenhuma) ingerência do Estado na atividade empreendedorial. O capitalismo "selvagem" do final do Império e durante a República Velha serviria de poderoso ímã para atrair o capital humano que não via perspectivas na Europa. Por isso, o Brasil disputava a mão-de-obra européia com a vizinha Argentina e também com os Estados Unidos. Infelizmente, nos anos 30 os brasileiros perderiam as liberdades econômicas, devido aos fascismo da Era Vargas. Nunca mais o País desfrutaria de um período tão longo de prosperidade como o meio século que o Conde Francesco Matarazzo pôde e soube aproveitar.

 

Excluindo a distorcida visão que Ronaldo Costa Couto tem da realidade econômica brasileira e mundial, há poucos erros evidentes no livro. Um deles, por exemplo, é tentar apresentar um Rui Barbosa humilde: "no auge da glória, maior jurista do Brasil, mantinha fidelidade canina a hábitos modestos e simples, do tempo de mortal" (pg. 219, 1o volume). Ora, uma afirmação dessa natureza, feita por um historiador, é o que há de mais estapafúrdio. Quem já esteve na Fundação Casa Rui Barbosa, na Rua São Clemente, no Rio de Janeiro, onde, "no auge da glória", vivia o "maior jurista", constata que ele habitava um verdadeiro palácio. Desfrutava de confortos raros para os padrões da época. Um exército de serviçais se fazia indispensável para manter o fausto do palácio da Rua São Clemente. O autor apresenta o palácio como se fosse uma simples casa, sem se dar conta de que há nela uma biblioteca de 35 mil volumes (que não invade os salões, os inúmeros quartos, a sala de jantar, todos decorados com fino mobiliário europeu).

 

A leitura de "Matarazzo", apesar dos defeitos acima apontados, pode ser feita com enorme proveito. Mostra a importância da atividade empresarial para o desenvolvimento de um país e como o Brasil perdeu as condições que permitiram a prosperidade do Conde, de seus empregados e das comunidades onde suas indústrias e comércios atuavam.

* Vice-Presidente do Instituto Liberal

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