Livro em Resenha » 31.08.04
O pai dos pobres? O Brasil e a Era Vargas
___ Robert M. Levine
UMA VISÃO SOBRE O MITO VARGAS
___ Cândido Prunes*
Os autores que nutrem certa simpatia pela figura de Getúlio Vargas, mas são honestos intelectualmente, sempre se socorrem da personalidade “complexa” do ex-ditador para justificar seus maiores erros. Esquecem-se de que qualquer pessoa que exercesse a presidência por 20 anos, a maior parte dos quais com poderes absolutos, se tornaria necessariamente uma figura complexa. Num longo período como esse também não é difícil identificar fatos positivos (muitas vezes sem relação nenhuma com qualquer ação governamental) para render as devidas homenagens ao chefe.
Este é o caso da obra Pai dos Pobres? O Brasil e a era Vargas, do historiador norte-americano Robert M. Levine. Ele fez uma longa pesquisa em arquivos brasileiros e norte-americanos na década de 60, publicando originalmente esse trabalho pela Comumbia University Press, em 1970. Na década seguinte, o autor expandiu a pesquisa e finalmente publicou a versão revista em português no ano de 2001.
A simpatia que o autor demonstra ao analisar Vargas e seus períodos na Presidência – à qual chegou por, praticamente, todos os meios - por revolução (1930), eleição indireta (1934), golpe de Estado (1937) e eleição direta (1950) – não o impede de um certo espírito crítico, especialmente quanto às práticas políticas. O Professor Levine (Universidade de Miami) desenha, no entanto, um retrato muito mais favorável ao ex-ditador no que diz respeito à sua agenda econômica. É certo que ele narra os incontáveis fracassos econômicos, especialmente o do populismo do segundo mandato. Mas há sempre uma justificativa à mão para isentar o intervencionismo fascista dos anos 30/40, ou keynesiano dos anos 50. Talvez porque o autor não seja economista e não saiba que não existe registro de nenhuma política econômica intervencionista bem sucedida. Mas excluindo a frágil argumentação para explicar aspectos supostamente beneméritos das políticas de Vargas, que lhe concede o duvidoso título de “pai dos pobres”, a obra representa uma pesquisa meritória e deve ser lida por quem se interesse pelo período Vargas.
O maior reparo que pode ser feito diz respeito à questão do suicídio, tratado como um “mistério”. Mais uma vez a personalidade “complexa”, “introvertida” e “enigmática” do ex-ditador é invocada. Ora, nas três semanas que antecederam o suicídio, Vargas se viu às voltas com uma oposição implacável nas denúncias de corrupção. A inflação também já despontava como um sério mal econômico e seu círculo íntimo viu-se inequivocamente envolvido na tentativa de assassinar Carlos Lacerda. Caso não tivesse se suicidado, o ex-ditador teria sido derrubado e, provavelmente, levado a julgamento, como aconteceu com o ex-presidente Collor e sua entourage. O gesto suicida foi a única alternativa para Vargas garantir um lugar ao sol na História brasileira do século XX. Não há nisso nenhum mistério.
* Vice-Presidente do Instituto Liberal
LEVINE, Robert M. Pai dos Pobres? O Brasil e a Era Vargas. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2001, 278 páginas.
Introdução: Vargas, um enigma
No comando, 1883 – 1937
O Estado Novo, 1937-45
Populismo à Vargas, 1945-54
Os diferentes Getúlios
A revolução Incompleta de Vargas
Apêndice A. Cronologia
Apêndice B. Fontes contemporâneas
Apêndice C. Fotografias
Ensaio bibliográfico
Notas
Índice remissivo

